Vai, Brasa? O erro de decisão por trás da camisa da Seleção
- há 1 dia
- 3 min de leitura
Por Thierry Rodrigues
Antes de qualquer coisa: este não é um texto sobre política. Em um país cada vez mais polarizado, qualquer discussão tende a escorregar para esse lado, e aqui não é o caso.
Também é importante dizer o óbvio: transformar uma crítica profissional em ataque pessoal é um erro. A designer envolvida no projeto não deve ser alvo de hate. Estamos falando de decisão, processo e estratégia. Não de pessoas.
E já deixo claro outro ponto: na minha opinião, a camisa é bonita. Para o meu gosto, é uma das mais bem feitas dos últimos anos. Tecnicamente bem executada, com bons detalhes e acabamento. Há qualidade ali. A questão está muito mais na decisão do que no design.

A polêmica do “Vai, Brasa” escancara um erro que uma marca do tamanho da Nike não poderia cometer. E não se trata de discutir linguagem. O ponto é muito mais direto.
Foi estampado na camisa da Seleção Brasileira um grito que nenhum torcedor grita. Eu, que acompanho futebol, frequento estádio e vivo esse ambiente há anos, nunca ouvi isso sendo dito em um estádio no Brasil, em Copa do Mundo ou em qualquer contexto real de arquibancada.
Não é uma expressão do torcedor brasileiro. Não faz parte da vivência. Não representa o que acontece no estádio. E isso deixa claro um problema mais profundo.
A decisão parece ter sido tomada a partir de recortes muito específicos da realidade. Possivelmente baseada em dados de um nicho, talvez até de uma única rede social, em um contexto que não representa o todo.
É o tipo de leitura que pode até fazer sentido dentro daquele recorte, mas que não sustenta uma decisão quando o objetivo é representar a maior expressão do futebol brasileiro.

Quando uma marca assume a responsabilidade de representar a Seleção Brasileira, talvez o maior símbolo do futebol mundial, ela não está lidando apenas com estética. Está lidando com cultura.
E cultura não se entende só com pesquisa.
Ela exige repertório, convivência e sensibilidade para interpretar o que, de fato, representa o coletivo. Quando isso não acontece, abre-se espaço para decisões que até fazem sentido no papel, mas não se sustentam na prática.
E aí está o erro.
Não há problema nenhum em um profissional não viver diretamente o universo que está criando. Isso é comum. O problema é quando os critérios que sustentam a decisão são frágeis.
Quando você combina:
métricas superficiais
leitura incompleta de contexto
ausência de vivência
o resultado tende a ser artificial. E foi exatamente isso que aconteceu aqui.
Criou-se uma percepção de brasilidade que não corresponde à realidade. Uma tentativa de traduzir cultura sem, de fato, estar inserido nela.
Isso explica por que a reação foi tão forte. A mensagem não é reconhecida como verdadeira. Ninguém vai deixar de gostar da Seleção por causa disso. Mas marcas, sim, podem sofrer desgaste.
Já é possível ver discussões sobre troca de fornecedor esportivo. E isso mostra o peso de uma decisão mal calibrada, mesmo quando todo o resto do produto é bem executado.
Existe uma frase que, aqui na Dito&Feito, a gente repete bastante:
Pesquisa não substitui vivência.
Ela complementa. Ela direciona. Mas, sozinha, não sustenta decisão.
E mais do que isso: uma pesquisa mal feita, ou baseada nas perguntas erradas, pode levar a conclusões completamente distorcidas.
No fim, o “Vai, Brasa” não é um erro de design. É um erro de processo.
Um erro de quem decidiu sem estar suficientemente próximo daquilo que estava sendo representado.
E esse é o tipo de erro que nenhum orçamento bilionário resolve.
Porque quando a marca não fala como o público vive, ela pode até parecer atual, mas dificilmente será percebida como autêntica.



Comentários